Networking já morreu - Solidão profissional na saúde

Uma queixa comum entre o(a)s profissionais de saúde e demais áreas que se relacionam com a Saúde Omni é a solidão. Ela não aparece nestes termos, mas hoje está claro para mim que devemos chamá-la pelo seu verdadeiro nome.

Quase todo(a)s afirmam que têm inúmeros projetos, sonhos, desejos pessoais e de carreira, mas que não conseguem achar pares para compartilhar sua visão e dividir as tarefas de construção de algo novo. É um complicador ainda maior diante do overwork e falta de tempo crônicas típica das profissões da área e da nossa contemporaneidade.


Desconexão crônica

Esta desconexão, contudo, não é "culpa" de ninguém, nem falta de habilidade ou capacidade, na maioria dos casos. Ela é uma falha estrutural da própria área da saúde que se desdobra em todas as suas profissões e especialidades. Vem sendo assim há séculos, mas eu sinto que chegamos num ponto de saturação e inflexão que tornou essas solidão ainda mais insustentável após a pandemia.

Antes de seguir, preciso dizer que senti e ainda sinto essa solidão na pele. Alguns afirmam que não tem jeito: a liderança é solitária mesmo e blablablá. Não, ela não precisar ser solitária, eu só demorei muito para entender...

Minha trajetória até agora foi um embate constante com a solidão profissional. Nasci no Ceará e comecei minha carreira empreendedora lá. Era minha ração diária de trabalho engolir boas doses de frustração por me sentir afastado dos grandes hubs e centros de inovação. Por mais que trabalhasse o dobro, era fato que havia uma barreira invisível (ou nem tanto...) que dificultava meu contato com profissionais, empresas e tomadores de decisão. Não, não existia LinkedIn na época.

Quando comecei a empreender em SP, lá pelo começo da década de 2010, constatei na prática que oportunidades ainda são, a despeito de toda a evolução digital, profundamente territorializadas, para não dizer bairristas! Mas a maior surpresa foi perceber que mesmo no coração do capitalismo brasileiro, a sensação de isolamento perdurava, só que em outro nível! A queixa agora é sobre como brasileiros eram deixados de fora das grandes round tables internacionais, ou seja, havia isolamento do mesmo jeito, só mudara o alvo...

Corte para quando finalmente comecei meus primeiros projetos nos EUA. Finalmente o ápice, a placa mãe do capitalismo global, certo? Errado. Eu estava na Flórida e comecei a me sentir deslocado porque boa parte das oportunidades mesmo estavam em New York ou San Francisco.

Fui para NYC, mas quando cheguei lá, descobri que eu, residente do Brooklyn, não passava de um apêndice de grande ilha de Manhattan, que concentrava a maior parte dos locais que precisava interagir. Depois dali, foi tela azul na alma...


A tela azul da alma

Por que eu estava eternamente correndo atrás do meu próprio rabo na trilha do eldorado do networking perfeito? Não havia ponto de chegada? Será que sempre seremos centro e periferia de alguém?

Precisei, como muito(a)s, chegar no limite da sanidade e da saúde disfarçada de sucesso para perceber que o que eu procurava não era contatos, cartões, colecionar perfis de LinkedIn e afins. O que realmente eu procurava era conexão, algo bem mais sólido, duradouro, acolhedor e que me fora negado lá no começo...

Como uma ferida aberta, este abandono, esta solidão inicial virou um fantasma, um sintoma procurando se alimentar de um medo perene de ser deixado de fora ou de lado. O medo se tornou um fim em si mesmo, até que uma crise fê-lo desintegrar sua máscara.

O que quero compartilhar com vocês nesta série de textos é, basicamente, isto: para mim, a era do networking tradicional, de coffee breaks com café e cartão profissional, já morreu. E já não era hora!

Quero também ilustrar isto dentro de uma área extremamente problemática no quesito conexão: a saúde, com seus profissionais, instituições e empresas lacrados em silos incomunicáveis. É aqui em que a Saúde Omni vem fazendo seus avanços na construção de uma comunidade mais genuína, não pautada em ideias e PowerPoints, mas em conexões reais, sem máscaras ou agendas secretas.

Vamos então começar a exumação dos (not)working pelos seus sintomas e possíveis antídotos:


Sintoma 1: O "umbigocentrismo" profissional e epistemológico na Saúde

Pois é… ainda que a OMS já reconheça há décadas que saúde é um bem-estar biopsicossocial e vivamos um ressurgimento de modelos de saúde da pessoal integral, a verdade é que na intimidade de consultórios e instituições, cada profissional enxerga somente a fração do prisma da saúde que interessa à sua profissão.

E não é por preguiça ou negligência (pelo menos quero acreditar que não…), é por limitação jurídica e metodológica!

Seja profissional ou paciente (sempre somos um ou outro), aposto que na sua prática você já se revoltou ou se frustrou ao perceber que parte da sua intervenção ou protocolo de cuidado é limitada pela exclusividade de abordagem de outra profissão. Não é aqui desmerecer ou despersonalizar especialidades, mas é refletir sobre as fronteiras muitas vezes aleatórias (e quase sempre corporativistas) destas e como isto impacta na maneira como enxergamos a saúde e as pessoas e também como somos enxergados!

Esta miopia seletiva se transporta para o dia-a-dia do(a) profissional, que raramente se relaciona com experts de outras áreas. Chega a ser desconfortável ver como "panelinhas" profissionais se comportam em eventos de saúde, por exemplo. Profissionais de medicina só conversam entre si, de psicologia, odonto, enfermagem, todo(a)s só parecem "pertencer" aos seus pares profissionais.

A disparidade é ainda mais cataclísmica se comparamos profissionais da saúde com experts das ciências humanas e exatas! Realmente vivemos na era das bolhas online e offline…

Este "umbigocentrismo" apenas replica no cotidiano a maneira como somos formados e treinados. E é aqui que precisamos agir urgentemente se quisermos diminuir a síndrome da solidão profissional no geral e, em específico, na área da Saúde.

Antídoto 1: A curiosidade não domesticada e a polimatia


O homem vitruviano multiinstrumentista ...

Precisamos adotar, sem o prejuízo da especialidade, uma postura mais "horizontal" e generalista de conhecimento. Isto é possível sim e desejável, basta para tanto reativar a curiosidade humana inata e desistir de domesticá-la dentro do cercadinho de cada profissão.

Uma curiosidade cultivada de maneira polímata nos faz pensar mais em termos de problemas e desafios amplos, não só em questões atinentes ao seu crachá profissional. Isto é o primeiro passo para encontrar referências e indicações de outras áreas que podem complementar a sua.

Aqui começamos devagarinho a sair da zona de conforto e referência tradicional e iniciamos um processo deveras mais caótico de construção de conhecimento, que é navegado com muito mais tranquilidade se você tem o apoio de uma comunidade de interesses comuns! Ou seja, o desenvolvimento da polimatia requer algo mais profundo que o (not)working...

Bom, esta foi a primeira parte :) Te espero na parte 2!

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