Solidão profissional na saúde - 2

Antes, abordei a postura egocêntrica, "umbigocêntrica" que reina nas profissões, especialidades e divisões da área de saúde, apontando como ela é resultante de uma aculturação que começa nos bancos das universidades e se metastatiza nas associações de categoria, eventos, pós-graduações e mais… A raiz dessa cisão é muito profunda mesmo, é epistemológica, remonta à maneira como o ser humano foi decomposto em "camadas" e "setores" na tradição científica ocidental eurocêntrica, em que o "psicológico" é descolado do "físico", o "físico" de um sistema é estudado independente de outro (digamos, sistemas cardiovascular e renal) etc. Este paradigma parece estar mudando nas últimas décadas, com o resgate de abordagens integrativas, mas o estrago gerado já é extenso. Tão extenso que afeta a maneira como profissionais se relacionam, pensam e criam. O umbigocentrismo no campo dos paradigmas se realiza subjetivamente no individualismo de carreira e de negócios. E seu corolário de comunicação é o mito do herói ou heroína que resolve tudo sozinho(a). Você encontra esta trupe aos montes no eventos de net(not)working. Sintoma 2: Quando os heróis do networking viram os expoentes do not-working Estamos falando de solidão e como comunidades genuínas debelam seus sintomas, então precisamos diferenciar este tipo de relação e conexão com coletivos do conceito de networking, onde muitas pessoas esperam encontrar o alívio a seus isolamentos profissionais. Há inúmeros clubes de networking e associações que propagandeiam o termo como diferencial competitivo. Na porta de cada hub, incubadora ou aceleradora, lá está a palavra prometendo algum efeito mágico e não tangível de relações que proverão acessos às tão sonhadas oportunidades. Eu mesmo já fiz parte de vários destes grupos. Tive boas experiências, claro, mas não demorou para ver que os benefícios reais do networking aconteciam de uma forma bem diferente do que falavam. Primeiramente, conexões que se tornaram parceiras, sócias, mentores ou amigas, só se realizaram após muito tempo, anos mesmo… e em geral, frutificavam quando ambas as partes já não estavam no contexto original do clube, grupo ou associação! Ou seja, eu poderia ter participado só de 10% dos inúmeros eventos, cafés, imersões, jornadas e teria provavelmente o mesmo resultado, porque no contexto de troca de cartões profissionais, cafezinho e pão de queijo, eu nunca conseguia realmente transmitir tudo que pensava ou empreendia e nunca conseguia captar completamente o que a outra pessoas falava também. Outra coisa que sempre me incomodou também é que nestes altares do networking, onde o individualismo abunda, a maioria das pessoas não estava preocupada realmente em ouvir, conectar, mas simplesmente em capturar o máximo de contato e valor possível para seus próprios interesses. Nenhum problema nisso, a questão é que se todo(a)s fazem igual, é como se estivéssemos numa câmara de eco, onde vários "heróis" (profissionais renomadas, fundadoras de startup, executivos e quem mais couber no caldo) cantam suas glórias e louvores e, quase com vergonha, no final da conversa, falam que "podem" precisar de alguma ajuda ou apoio… Não dá, com o tempo, é intolerável. Colecionar perfis de LinkedIn e cartões profissionais não melhora a solidão profissional que falamos.

Antídoto 2: Sem fantasias, venceremos Para a Omni, o modelo acima, que tanto vigorou nas décadas de 2000 e 2010 se tornou "cringe". Saímos de um isolamento físico forçado e uma supersaturação digital regada a Zooms e WhatsApps intermináveis: pessoas clamam por conexões genuínas, finalmente. Iniciar uma relação profissional, uma parceria, não prescinde de uma conexão real, nível pessoa-pessoa. Não falo de uma intimidade instantânea e sem noção, mas de uma abordagem que procure ligar os pontos entre os desafios e oportunidades de carreira/negócio com a jornada pessoal de cada pólo do encontro. Eu sei que não dá tempo de cultivar um diálogo mais profundo no break do seu congresso profissional, mas e depois? Também: se você mesma(o) for a provocadora destes encontros menos pautados em crachás e mais no conhecimento genuíno das pessoas E suas carreiras? Eu sempre sonhei com comunidades assim e acabei criando e participando de algumas ao longo da vida. Em todas estas eu me sinto seguro e acolhido para pendurar minha "fantasia" de CEO, investidor, empreendedor etc. e posso compartilhar minhas ideias e desafios num nível muito mais alto de conexão. Na comunidade to.dos, que foi criada pela Omni justamente para prover um espaço mais amplo, honesto e rico a todo(a)s que queiram construir ou participar de projetos de saúde híbrida, nosso núcleo de identidade não é a ideia, o empreendedorismo, investimento, startup ou coisa que o valha. Nosso foco é relação, na conexão, respeitada em seu processo mais lento e orgânico de maturação. Não iremos começar e terminar em um fim de semana, nem nos dar por satisfeitos com um evento de meio período regado a palestras mais do mesmo. Toda(o)s que entram começam sua capacitação imersiva pelo autoconhecimento, aprofundando-se sobre sua personalidade, sonhos, obstáculos e desejos. Com base nesta troca sem máscaras é que começamos realmente o processo de organização de oferta e demanda na comunidade, que evolui para a construção de pequenos grupos de interesse e para uma experimentação tutelada com nossas ferramentas de saúde híbrida. Naturalmente, é uma comunidade sem data de validade. Sim, existirá e manterá se renovando enquanto houver sentido e interesse. Fica o sútra neste email: networking profissional sem abertura pessoal é not working.

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